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DIVINO — VERDADE

VIDE: ALETHEIA; VERDADE DO MUNDO; VERDADE DO CRISTIANISMO; VERDADE DA VIDA

FILOSOFIA
Michel Henry: EU SOU A VERDADE

Esta é uma das afirmações mais essenciais do cristianismo: que a Verdade que é a sua só pode dar testemunho dela mesma. Apenas ela pode atestar a si mesma - revelar-se ela mesma, dela mesma e por ela mesma. Esta Verdade que ela só tem o poder de se revelar ela mesma, é a de Deus. É Deus ele mesmo que se revela, ou o Cristo enquanto é Deus. Mais radicalmente a essência divina consiste na Revelação ela mesma como auto-revelação, como revelação de si em si a partir de si. Somente aquele a quem esta revelação é feita pode entrar nela, na sua verdade absoluta. Apenas aquele que entrou nesta verdade absoluta pode esclarecer por ela, entender aquilo que é dito no Evangelho e que precisamente nada mais é que esta Verdade absoluta que, se revelando a ela mesma, se revela a ele. Que a Verdade absoluta se revelando a ela mesma, se revela também àquele a quem lhe é dado entendê-la, é o que faz dele que a entende o filho desta verdade, o Filho de Deus - segundo a tese que se vai demonstrar que ela é constitutiva do conteúdo essencial do cristianismo. Mas a verdade desta tese última, não é dado a nenhum texto promovê-la ou entendê-la.

A VERDADE DO MUNDO é o primeiro capítulo deste livro onde se lançam as bases de uma investigação sobre a "verdade", essencial para a justa aproximação da tradição cristã, ou de qualquer outra tradição religiosa.

Arcângelo Buzzi:
Ao surpreender esse momento íntimo do ser, estaremos por certo na presença retraída da verdade. A verdade é pois revelação do ser. Mas o que se revela insinua uma profundidade não-revelada. Verdade é então revelação que evoca a não-revelação. Em grego o termo usado para exprimir esse movimento revelador do ser, portanto a verdade, é aletheia, palavra derivada do verbo lantháno, que significa encobrir, e da partícula privativa a. Alétheia ou verdade é o velado retraído no desvelado do ser.

Isso supõe que o ser ande por aí encoberto, que o ser que nos circunda se oculte nos esconderijos das coisas. Embora a realidade esteja aí, não significa imediatamente que nós nos tenhamos encontrado com ela. O que vemos são camadas epidérmicas que por sua vez aludem a outras mais latentes, desconhecidas.

«O que é o ser constitui a pergunta incessante do filosofar. O ser enquanto ser determinado é cognoscível. As categorias mostram as formas fundamentais em que está determinado. Sua representação na lógica deixa ver expressamente as formas ou modos do ser: o ser como ser conhecido e como ser pensado se faz objetivo em suas ramificações e em sua multiplicidade. Mas com isso o ser não está esgotado por completo.

Se quero saber o que é o ser: tanto mais claramente se mostra o extravio do ser para mim quanto mais inexoravelmente prossigo perguntando e quanto menos me deixo enganar por qualquer imagem construtiva do ser. Nunca tenho o ser senão que sempre tenho um ser. O ser se reduz à vazia determinação da afirmação na cópula «é» como função unívoca e indeterminável que notifica sua presença, mas sem converter-se nunca de modo consistente em um conceito que abrangesse a todo ser no que tenha de comum, nem numa totalidade de algo interior, menos ainda num ser especifico, que possuísse a condição sobre-excelente de ser a origem de tudo. Sç pretenda conceber o ser como ser, fracasso inexoravelmente.

Em nenhuma parte tenho o ser. Não importa onde, tropeço sempre com limites, movido por aquilo que está vinculado à minha liberdade porque a liberdade mesma é busca do ser. Se não o busco é como se eu mesmo cessara de ser. Pareço encontrá-lo na «historicidade» concreta de minha existência empírica ativa e, sem embargo, tenho que vê-lo me escapando constantemente quando quero agarrá-lo filosofando» (K. Jaspers, Filosofia, II. Madrid 1958, pp. 335-336).


PERENIALISTAS
Leo Schaya: A VERDADE (abaixo tr. Antonio Carneiro)
A Verdade não saberia então ser achada por único pensamento, isto é por uma faculdade que, em razão de sua natureza dualista, não pode ultrapassar inteiramente o abismo de sua dúvida; em contrapartida, o homem não pode encontrar a Verdade sem nenhuma contribuição do pensamento, pois é um ser pensante, e se o pensamento não tivesse nenhuma relação com a Verdade, o homem também não teria ligação consciente com ela. Uma coisa é certa: a noção mental da Verdade existe; o pensamento se opõe ao erro e o identifica ao conceito do Real. Isso indica, “ad extra”, uma relação entre o pensamento e a Verdade, « relação » que, “ad intra”, não é outra senão o Espírito. É o Espírito que leva à Verdade. O pensamento constitui o traço de união entre o homem e o Espírito, mas se interpõe aí ao mesmo tempo como um obstáculo, por causa de seu dualismo « orgânico », cujas expressões são a dúvida e o erro; também o pensamento não saberia ultrapassar o erro e se integrar na Verdade, sem se conformar ao Espírito e sem se desaparecer finalmente nele. (Leo Schaya, O HOMEM E O ABSOLUTO SEGUNDO A CABALA)


Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA

O princípio da veracidade está formulado da melhor forma possível na divisa dos marajás de Benares: "Não há direito superior ao da verdade." Assim também, o princípio da sinceridade se encontra mais bem expresso nesta fórmula jurídica: "A verdade, nada mais do que a verdade, toda a verdade", mas aplicada de forma moral e, consequentemente, parafraseada: "O bem, todo o bem, nada mais do que o bem", ou seja, o movimento de aproximação em direção a Deus.

François Chenique: SARÇA ARDENTE
Deus é portanto para a criatura "causa do ser, razão do conhecer e regra de vida1 , mas isso, a simples filosofa não permite alcançar: "a chave deste conhecimento é a doutrina do Verbo incriado por que tudo foi feito, do Verbo incarnado por que tudo foi reparado, do Verbo inspirado por que tudo foi revelado" (Hexaemeron). Para São Boaventura, a verdade "lógica" e a verdade "ontológica" estão sempre unidas pois o princípio de ser é também o princípio de conhecer, e a inteligência humana não poderia separá-los.

A verdade eterna é o firme apoio do pensamento humano mas esta não participa diretamente da verdade incriada (nada de ontologismo); é preciso receber a luz divina:

"O espírito humano não vê o verdadeiro total senão em e pela verdade divina, senão em e por uma luz especial irradiando de Deus sobre a alma e lhe fazendo ver o que suas forças naturais não poderiam lhe fazer apreender inteiramente. O Cristo é o doutor interior e nenhuma verdade não é conhecida se não é por ele que nos ensinam não com palavrasm mas com iluminações interiores... Há portanto dois termos: Deus sol da inteligência, e alma, que recebe esta luz" (J. G. Bougerol, "Saint Bonaventure et la sagesse chrétienne")


NOTAS
1 Fórmula de Agostinho de Hipona «causa essendi, ratio intelligendi, ordo vivendi» (De Civ. Dei, VIII,4).


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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)