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FILHO — FILHO DE DEUS

VIDE: FILHO, PAI, FILIAÇÃO, AUTOGENES, AGENETON, GENEALOGIA DE JESUS CRISTO

Primeiramente é preciso dar-se conta da "personalização vulgar" do pensamento ordinário, produto da ilusão de que somos um corpo (ou, pelo menos, nele habitamos), e de que tudo assim é visto a partir de mim mesmo dentro de um corpo. O Filho de Deus não é o que esta percepção de um ponto de vista equivocado apresenta. Embora venha a ser pensado nesta modalidade reduzida, por conta de nossa ilusão corporal, esta não é sua realidade. Então, despidos ou, pelo menos, desconfiados desta ilusão corporal, devemos nos impôr a pergunta fundamental sobre o ser do Filho de Deus, ou melhor dizendo, o sendo do Filho de Deus, onde "sendo" guarda a condição de verbo e substantivo, que o original grego on detinha. As respostas se sucederão, mas uma intuição intelectual se fará presente. Atentos e à escuta das colocações abaixo, somos convidados a uma percepção mais justa e adequada do que é o FILHO DE DEUS.



Cristologia

Clemente de Alexandria: Excertos Teodoto
O Filho, "luz inacessível", que é "Monogenes", "Primeiro-Nascido", é também "a Face do Pai" que nos permite conhecer o Pai. Os dois termos Monogenes e Primeiro-Nascido estão ligados. Porque Monogenes ("Único-Engendrado") e Filho, é também "Primeiro-Nascido", primeiro ser distinto (de certa maneira) a partir do Pai. Donde: "Primeiro-Nascido da criação" (Col 1,15): porque começou a manifestação do Pai em se distinguindo dele, todo o resto será criado neste Monogenes, e por ele.

Quanto à assimilação dos eleitos aos Anjos superiores ou Protoctistas que contemplam diretamente o Filho (Face do Pai), veja-se Natureza do Filho. Os Anjos dos pequeninos contemplam sem cessar a "Face do Pai". Estes são os sete "Protoctistas". Os pequeninos, quer dizer os eleitos, terão a mesma contemplação, a seu grau final de perfeição (teleia prokope). Os Arcanjos não contemplam senão os Protoctistas.

Joaquim Carreira das Neves: Excertos de "Escritos de São João"
Jesus é chamado no evangelho e nas cartas de João "Filho de Deus", enquanto que os cristãos são chamados "filhos de Deus". Esta distinção diz bem da relação única de Jesus com o Pai. Em 1,18 ele é o FILHO ÚNICO (monogenes, diferente de UNIGÊNITO, como usualmente se traduz, por influência da Vulgata de S. Jerónimo, que traduziu por "unigênito" para responder a Ario que defendia que Jesus "foi feito" e não "gerado").

Como Filho, Jesus é o enviado (shaliah) do Pai: "O Pai entregou todas as coisas nas mãos do Filho" (Jo 3, 35). Como Filho, Jesus depende do Pai e obedece ao Pai (Jo 5,19): "O Filho, por si mesmo, não pode fazer nada, senão o que vir fazer ao Pai, pois aquilo que este faz também o faz igualmente o Filho". O interessante deste texto consiste no fato de o Filho não apenas estar sujeito à obediência e na dependência do Pai, mas de "fazer também aquilo que o Pai faz" (cf. Jo 3,34; Jo 7,28; Jo 8,26.42; Jo 10,32. 37; Jo 12,49). Desta forma, existe um conhecimento recíproco entre o Pai e o Filho (Jo 10, 15: "assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai...", que faz com que o Filho revele o Pai (Jo 1,18: "O Filho único, que é Deus e está no seio do Pai, foi ele quem o deu a conhecer"; Jo 8,38: "Eu comunico o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que vistes ao vosso Pai (o diabo)"; Jo 15,15: "... mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai"; Jo 17, 25-26).

Quando o evangelho apresenta a unidade do Pai e do Filho, é sobretudo a partir da unidade na obra da revelação e salvação (Jo 8,16: "Mas, mesmo que eu julgue, o meu julgamento é verdadeiro, porque não estou só, mas eu e o Pai que me enviou"; Jo 10, 25-30: "v. 25:".... as obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho a meu favor"... v. 29: "O que o meu Pai me deu vale mais que tudo e ninguém o pode arrancar da mão do Pai"; Jo 14,10-11: "Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As coisas que eu vos digo não as manifesto por mim mesmo: é o Pai, que, estando em mim, realiza as suas obras. Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim; crede-o, ao menos, por causa dessas mesmas obras"). As obras de Jesus são as ações e obras de Deus.


Ascetismo e Misticismo

Mestre Eckhart: FILHO

Filosofia

Michel Henry: EU SOU A VERDADE
Compreender o homem a partir do Cristo, compreendido ele mesmo a partir de Deus, repousa por sua vez sobre uma intuição decisiva de uma fenomenologia radical da Vida, que é precisamente também aquela do cristianismo: a saber, que a Vida tem o mesmo sentido para Deus, para o Cristo e para o homem, e isso porque não há senão uma única e mesma essência da Vida e, mais radicalmente, uma só e única Vida. Esta Vida que se auto-gera ela mesma em Deus e que, em sua auto-geração, gera nela o Arque-Filho transcendental como a Ipseidade essencial na qual esta auto-geração se cumpre, é a Vida da qual o homem ele mesmo tem seu nascimento transcendental, e isso precisamente enquanto ele é Vida e definido explicitamente como tal no cristianismo, Filho desta Vida única e absoluta e assim Filho de Deus. A expressão tautológica “Filho de Deus” — posto que não há filho a não ser na Vida e assim em Deus — oculta esta verdade abissal que a essência do homem, o que a torna possível como esta que ele é realmente, não é precisamente o homem no sentido onde nós o entendemos, ainda menos não se abre qual humanitas, é a essência da vida divina — aquela que faz dele um vivente, e ela somente.

A tese do homem “Filho de Deus” recebe então uma dupla significação, negativa e positiva. Negativamente, ela interdita compreender o homem como um ser natural assim como o fazem o senso comum e as ciências. Mas ela interdita também de compreendê-lo, do ponto de vista transcendental, como um ser do qual o mundo constituiria o horizonte de todas suas experiências, o modo de aparecer comum a cada uma delas. É portanto a afirmação maciça pronunciada pelo Cristo sobre ele mesmo que deve ser retomada a respeito do homem e de sua essência verdadeira: «Eu não sou deste mundo» (Jo 17,14). Assim como o Cristo, eu homem não sou do mundo neste sentido fenomenológico radical que o aparecer do qual é feita minha carne fenomenológica, a qual constitui minha essência verdadeira, não é do aparecer do mundo. E isso não por efeito de algum credo pressuposto, filosófico ou teológico, mas porque o mundo não tem carne, porque no “fora de si” do mundo nenhuma carne nem nenhum viver são possíveis — os quais não se edificam jamais alhures senão no constringir patético e acósmico da Vida.


Gnosticismo

Antonio Orbe: CRISTOLOGIA GNÓSTICA: FORMULAÇÕES

Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 105
É certo que os homens desta longa geração, desde Adão até os últimos tempos, tal como estamos constituídos e segundo as obras, podemos ser “filhos deste mundo ou filhos da luz” (a luz, já sabemos, é a Palavra). O mundo é o campo onde se semeia a boa semente, mas onde também cresce a cizânia. Quando se põe a semente a frutificar é ela mesma a senda que leva a ser “filho do Pai celestial”; mas é a boa semente que há em todos e não a cizânia nascida eventualmente no campo e que se agrega, ou se adere à boa semente, a que constitui ao homem em filho do Reino.

É esta dualidade de ser o homem em sua consciência natural, não somente semente — o Ser verdadeiro — mas cizânia pronta para ser queimada no fogo de sua própria e breve temporalidade, o que torna difícil entender ao homem como filho de Deus.

A semente é um grande desconhecido para a consciência psicofísica, uma incógnita a resolver mediante um esforço penoso e às vezes muito prolongado, e no entanto, a cizânia aparece sempre na superfície, em descoberto, como a realidade cotidiana de nosso Ser. Não obstante, quem por purificação e por aprende a discriminar a perdurabilidade bem-aventurada da semente eterna que constitui seu próprio Ser, e a brevidade dolorosa da cizânia, não dúvida em empreender o Caminho que leva a ser filho de Deus. E isso não por ambição de cizânia, senão para realizar a verdade da semente que-um-é.

Para explicar esse paradoxo do homem que é filho de Deus por semente, mas que aparece ante si mesmo como filho do mundo por cizânia, idealizou o apóstolo Paulo sua “figura teológica” do filho de Deus por adoção, que não foi bem entendida pela exegese manifesta.





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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)