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Ascese

gr. áskésis,eós 'exercício prático (de uma arte), gênero de vida dos filósofos.

Pobreza e Fome

Peter Brown — Corpo e Sociedade
Qualquer que fosse sua condição social, nenhum egípcio do século IV poderia ter qualquer dúvida de que aquela era uma terra cuja população vivia sob o manto do medo perpétuo da fome. Não era à toa que "pobreza" e "fome", "os pobres" e "os famintos" tinham a mesma raiz na língua copta. Enquanto o vale do Nilo era uma zona de viveres preparada contra a ameaça da fome, o deserto era considerado uma zona desprovida de alimento humano: era a zona do não — humano. Por essa razão, a luta mais acirrada dos ascetas do deserto se apresentava menos como uma luta contra sua sexualidade do que como um combate com sua barriga. Era seu triunfo na luta contra a fome que, na imaginação popular, desencadeava as mais majestosas e obsedantes imagens de uma nova humanidade. Nada menos do que a esperança do Paraíso recuperado refulgia, de maneira espasmódica mas reconhecível, em torno das figuras que tinham ousado criar uma "cidade" humana num cenário desprovido de alimento humano.

O asceta levava consigo para o deserto alguns símbolos frágeis de uma humanidade resistente, que ele tinha que defender com tenacidade para sobreviver e manter sua sanidade. Não lhe era possível mergulhar como um animal na sedutora imensidão do deserto. Sua cela, na maioria das vezes, era o produto da ansiosa inquietação humana: tinha paredes que se interpunham entre ele e as feras selvagens, que na época vagavam pelo deserto em número muito maior do que hoje. O asceta ficava confinado nessa cela. Tinha que aprender a saborear sua "doçura" — ela era, ao mesmo tempo, sua fornalha fumegante e o lugar onde ele falava com Deus. Era a tumba profunda em que ele jazia, "morto" para o mundo, no deserto. Em suas longas vigílias, apenas sua vontade humana inquebrantável interpunha — se entre seu corpo e a imensa insensibilidade do sono.

Durante toda a sua vida no deserto, o corpo do monge ficava irrevogavelmente ligado ao alimento humano. Esse vínculo se condensava na pequenina pilha de pães secos amontoada num canto de sua cela. O pão significava um elo contínuo com a vida social humana. Costumava ser adquirido através do trabalho manual constante. Sua compra exigia viagens ocasionais de volta às margens do Nilo, para que o asceta vendesse seus produtos no mercado da aldeia e ganhasse mais dinheiro através de tarefas de árduo trabalho braçal, como ceifeiro avulso nos campos do vale. A necessidade de alimento humano, conseguido pelo trabalho duro, ligava o monge indissoluvelmente às fraquezas comuns de uma humanidade esfaimada. Era de se esperar que ele fosse acossado por ideias

de uma velhice enfadonha, da incapacidade de executar trabalhos manuais, do medo la fome que daí decorreria, da doença subsequente à desnutrição, e da profunda vergonha de ter que aceitar das mãos de outrem as necessidades da vida.

Os tentadores sussurros do "demônio da fornicação", por mais que pareçam fascinar os leitores modernos, afiguravam — se banais quando comparados a tão pavorosas obsessões.

Julius Evola

O termo ascese - do grego askeo, se exercitar - só conheceu originariamente o sentido de "exercício", e em certa medida, romanamente, aquele de "disciplina". O termo indo-ariano correspondente é tapas (em pali: tapa ou tapo) e possui significado análogo; com a única diferença que em razão da raiz tap - que quer dizer "ter calor, ardor" - compreende também a idéia de uma concentração intensa, de um ardor, quase de um fôgo.

No curso do desenvolvimento da civilização ocidental, o termo "ascese" recebeu no entanto, como se sabe, uma significação particular, que diverge do sentido original. Não apenas a palavra tomou um sentido unilateralmente religioso, mas, devido a intonação geral da , que veio a predominar entre os povos ocidentais, a ascese se ligou a idéias de mortificação da carne e a dolorosa renúncia do mundo; dito de outra forma, o termo acabou por indicar a via que a dita estimou a mais adaptada para a "salvação" e para a reconciliação da criatura, marcada pelo pecado original, com o seu Criador.

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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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