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ARTE — TEATRO

VIDE: SÁBADO;

Gurdjieff: RELATOS DE BELZEBU A SEU NETO (p. 478)

"No sábado, dia dos mistérios, ou dia do teatro, havia demonstrações feitas pelos eruditos membros do sexto grupo. Eram as sessões mais interessantes e, como se diz, mais "populares".

Eu próprio passei a preferir os sábados aos demais dias da semana e tratava de não faltar a um só deles, pois as demonstrações realizadas nesses dias pelos eruditos deste grupo provocavam, muitas vezes, nos demais membros dessa seção do clube um riso tão franco e espontâneo que me fazia esquecer, por momentos, no meio de que entes tricerebrais me encontrava, e eu mesmo me entregava a esse impulso esseral, cuja peculiaridade é a de só poder surgir entre seres da mesma natureza.

Em primeiro lugar, os eruditos desse grupo imitavam, diante dos outros membros do clube, diversas formas de emoções e de manifestações esserais; depois, juntos, escolhiam entre elas, as que melhor se adaptavam aos diferentes detalhes de tal ou qual dos mistérios já existentes ou dos que eles mesmos acabavam de compor; após o que, mediante alterações sistemáticas dos princípios da Lei de Sete, registravam, nas emoções e manifestações esserais que reproduziam, tudo que desejavam transmitir.

A propósito, meu filho, saiba que, se por um lado, nas épocas anteriores, os mistérios - alguns dos quais encerravam numerosas noções instrutivas conhecidas dos antigos - chegavam às vezes até sua distante posteridade, passando automaticamente de geração a geração, por outro, os mistérios em que os membros eruditos do clube dos Adeptos do Legamonismo haviam introduzido intencionalmente diversos conhecimentos que esperavam transmitir desta maneira aos seus descendentes distantes, lá desapareceram quase totalmente nos últimos tempos.

Incorporados há muitos séculos ao processo de sua existência ordinária, tais mistérios começaram a declinar pouco após o período babilônico; foram inicialmente substituídos pelos chamados "kesbaadjis" ou, como são designados hoje no continente de Europa, as "marionetes", antes de serem eliminados para sempre pelas "representações teatrais" ou "espetáculos", que constituem ainda hoje uma das principais formas de sua arte contemporânea e cuja ação é particularmente perniciosa no processo de "encolhimento" gradual de seu psiquismo.

Foi no início da civilização contemporânea que estas "representações teatrais" acabaram substituindo definitivamente os mistérios, quando certos entes, aos quais chegaram "de qualquer jeito" fragmentos de informações sobre a atividade daqueles "eruditos misteristas" babilônicos, começaram a fazer supostamente a mesma coisa.

Desde então, outros entes de lá deram a esses imitadores de mistérios o nome de "comediantes", "atores" e, atualmente, até de "artistas"; e o número deles, diga-se de passagem, cresceu enormemente nestes últimos tempos.



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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)