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id da página: 4073 DO TERCEIRO DEGRAU DO AMOR, A SABER: DA CASTIDADE.

Tradução da versão francesa feita por Antonio Carneiro

Capítulo III - DO TERCEIRO DEGRAU DO AMOR, A SABER: DA CASTIDADE.

Segue o terceiro degrau da escada do amor, a saber : a inocência, a castidade da alma e a pureza do corpo. Que o leitor preste toda sua atenção, eu lhe suplico : O que é necessário para aquele que quer obter a castidade. Para que a alma 1 deste que foi falado, seja casta e pura, é necessário que deteste e despreze pelo amor de Deus, todo amor, toda inclinação, toda afeição desordenada em direção a si-mesmo, em direção a seu pai e sua mãe, em direção a todas as criaturas ; de tal maneira que não ame a si-mesmo e às outras criaturas, senão pelo culto e pelo serviço a Deus. Então, ele poderá dizer com o Cristo : Quem quer que faça a vontade de meu Pai, é meu irmão, minha irmã e minha mãe: Mt. 12 Quicunque fecerit voluntatem Patris mei, ille meus frater et soror et mater 2 ; e assim, amará seu próximo, como a si-mesmo, e se conservará puro. Que não sofra mais por se deixar arrastar, se cativar e se acorrentar por ninguém, seja em virtude de palavras, atos, presenças, convites, obsequiosidades, serviços, ou sob os aspectos da santidade. Pois, ainda que, frequentemente não encaram senão o espírito, voltam-se no final em direção à carne; e não se pode apoiar seguramente neles. Que não tenha amor violento por ninguém, e que não queira se inspirar por ninguém; pois, embora este amor tenha aparência de bem, tem um mau fim, e se degenera em veneno. Que seja vigilante, repleto de atenção e de prudência, para não ser enganado. Se ele se deixa cativar e se arrastar, se sentirá abusado e manipulado. Que faça tudo que dependa dele, e cuide-se de si-mesmo, e que ame Jesus como seu único esposo. Que fique unido firmemente, à exclusão de todos os hóspedes estrangeiros, quais quer que sejam, e permaneça com ele de uma maneira estável, usufruindo de sua benevolência. Que ele o receba em si-mesmo; e que, usando todas suas faculdades, satisfaça avidamente seu amor. Será instruído, alimentado e dirigido por ele; pois é ele-mesmo seu próprio fruto. Bem melhor, apesar de todos seus próximos, será conduzido por ele para o seio do Pai, onde encontrará e experimentará a maior fidelidade; e se sentirá reposto e restabelecido de toda aflição e necessidade. É a vida da alma pura e casta - Fica a castidade corporal. Do que se compõe o homem. Para dizer algo sobre isso, se faz necessário saber que o homem foi composto por Deus de duas naturezas, (partes) a saber: a alma e o corpo, ou, a carne e o espírito. E essas duas não formam senão uma pessoa na natureza humana, concebida e nascida no pecado. E, ainda que Deus tenha feito uma alma pura e imaculada, no entanto, unida ao corpo, ela é conspurcada do pecado original. E desta maneira, nascemos do pecado, desde o seio materno. João 3 3. Pois, o que nasceu da carne, é carne, e o que nasceu do espírito é espírito. E ainda que o espírito ame sua carne, em virtude de sua geração natural, entretanto, na regeneração, onde o nascimento se faz em virtude do espírito de Deus, o corpo e alma são opostos, Gal.5 4 Rom.8 5 e eles se contrariam lutando um contra o outro, a carne estando repleta de concupiscência contra Deus e o espírito estando com Deus contra a carne. Então, se vivermos segundo as fraquezas e os apetites de nossa carne, morreremos no pecado; mas, se, ao contrário, mortificarmos no espírito o impulso da carne e levarmos vantagem sobre eles, nós viveremos na virtude. O corpo deve ser amado e odiado. Faz-se necessário odiar e desprezar nosso corpo, como sendo o inimigo capital que deseja nos afastar de Deus, para nos arrastar para o pecado. E, também, devemos amar e estimar nosso corpo e a vida sensitiva, pelo fato de ser o instrumento pelo qual servimos a Deus. Pois, sem o corpo, não podemos honrar a Deus e servi-Lo pelos atos exteriores, a saber: o jejum, a vigília, a oração e as outras boas ações deste tipo, que nos faz necessário justa e meritoriamente cumprir; a tal ponto que devemos livremente alimentar nosso corpo, dar de beber, vestir, a fim de que possamos então ser úteis a Deus, a nós-mesmos e ao próximo. Devemos fugir três vezes da carne. E, no entanto, devemos ter um cuidado atento, para evitar diligentemente três vícios que reinam na carne, a saber: a preguiça, a gula, a luxúria pelos quais um grande número, até mesmo dotado de boa vontade, cai nas faltas graves. Remédios para a gula. E contra a gula devemos escolher e abraçar amorosamente a moderação, a temperança e a sobriedade; nos privando sempre de qualquer coisa, tomando menos do que nos é permitido fazer, de maneira que fiquemos contentes com o necessário e com uma modesta refeição. Da preguiça. Contra a preguiça ou o torpor, em todas necessidades, sentiremos uma certa comiseração interior, da fidelidade e da boa-vontade; e seremos intrépidos e vigilantes, pronto para todas as ações que reclamam nossa ação e nossa concorrência; e isto, com a sábia moderação e discrição que exigem nossa força e a correta razão. Da luxúria. Contra a luxúria, por fim, evitaremos e fugiremos das frequentações desonestas, e os estimulantes da paixão; interiormente nos distanciaremos dos fantasmas impuros e das imagens desonestas; com medo de nos determos aí, e nos comprazermos nisso com alegria e deleitação; far-se-á, desta forma, que nenhuma imagem se grave em nós, e que não contraiamos nenhuma impureza natural. Como imprimimos o Cristo em nós. Sim, nos converteremos interiormente no Senhor, e em Nosso Senhor Jesus Cristo; consideraremos sua paixão, sua morte, e as três generosas efusões de seu sangue para nós, em virtude de seu amor. E, nos exerceremos nessas coisas, nos imprimiremos sua imagem em nossos corações, em nossas almas, em nossos corpos e em toda nossa natureza; como um sinete é impresso na cera.

Mas então, o Cristo nos arrasta com Ele para uma vida sublime, onde estamos unidos a Deus, e onde nossa alma pura e casta adere, por amor, ao Espírito Santo, e habita nele, onde correm as fontes de mel do orvalho celeste e de toda graça; e, os tendo provado, a carne e o sangue, tudo o que é do mundo se parece insípido. E, quanto mais nossa vida sensível é elevada e unida ao espírito, onde nós honramos a Deus e o procuramos intencional e amorosamente, mais tempo permanecemos castos, puros e inocentes, de corpo e alma.

Mas, quando, uma vez mais, regressamos para as coisas inferiores, e nos servimos dos sentidos, o gosto deve ser preservado do vício da gula; o corpo e a alma, do torpor e da preguiça; e a natureza, das inclinações obscenas e libidinosas. Evitar as más frequentações. É necessário também evitar a sociedade desonesta, como daqueles que se abandonam às mentiras, às execrações, às maledicências; que amam vomitar blasfêmias e jurar contra Deus; que são impuros e obscenos, seja em palavras ou ações; e para isso, é necessário fugir, como se foge dos maus espíritos. É preciso também preservar e guardar os olhos e os ouvidos; por medo de ver e ouvir coisas que são proibidas de se fazer. Que cada um se esforce por se conservar puro; que esteja livremente consigo mesmo e fuja da mudança e da multidão que honra os templos santos; e que suas mãos exerçam as boas ações: que execre e que deteste a preguiça; que evite as imensas comodidades, e considere como não sendo nada. Que ame a verdade e a vida; e ainda que se sinta casto, Lc 1 fuja sempre das ocasiões de pecar: Jo 36 ame as ações de penitência e o trabalho; Mc 67 considere o precursor do Senhor, João Batista, que, embora tenha sido santificado antes de seu nascimento, no entanto, desde sua tenra juventude, fugindo de seu pai e sua mãe e abandonando as honras e as riquezas do mundo, a multidão das cidades e as ocasiões de pecar, se retirou para os antros do deserto. E no entanto, era inocente e de uma pureza angélica, e honrou e abraçou a verdade seja em sua vida, seja nos ensinamentos aos outros pela palavra; e por fim, por causa da justiça, foi entregue à morte; e ele é exaltado e glorificado por uma santidade de vida bem acima de todos os outros. - Que considere também os Padres que outrora moraram no deserto do Egípcio, a fim de abandonar o mundo, de crucificar e fazer sofrer sua carne e sua natureza, resistindo aos vícios, fazendo penitência, fazendo abstinência para suportar a fome e a sede, e se privando de tudo então que se podia passar. Em seguida, que lembre em sua memória a recordação da sentença e do julgamento tido pelo Senhor contra o rico, revestido de púrpura e de fino linho, e fazendo em cada dia esplêndidos festins, sem nunca dar nada aos pobres, e quando partiu dentre os vivos, foi sepultado no inferno, onde ardia nos tormentos das chamas do Tártaro, e, embora solicitasse insistentemente, não pôde obter sequer uma gota d'água, para refrescar sua língua ardente. Porém, ao contrário, o mendigo Lázaro que, atormentado pela fome e pela sede e repleto de chagas, jazia à porta deste rico, pedindo que as migalhas que caíam da mesa lhe fossem dadas, sem entretanto conseguir, após sua morte, foi levado pelos anjos para o seio de Abraão, onde estão as imensas alegrias sem mistura de dor, e uma vida eterna que a morte não pode mais atingir.

NOTAS:

1. A alma ( daquele que quer subir os degraus da escada da perfeição ou do amor divino).
2. Pela Vulgata o texto em referência é o seguinte : ( Mt. 12, 50 ) quicunque enim fecerit voluntatem Patris mei qui in caelis est, ipse meus et frater, et soror, et mater est. Cuja tradução literal é : ( Mt. 12, 50 ) todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está no céu, este é meu irmão, irmã e mãe.
3. Aqui o autor se refere a passagem de Jn 3, 6: (versão da Bíblia de Jerusalém) - O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito; (versão da Bíblia Tradução Ecumênica - TEB) - O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito; (versão da Bíblia n1. grande vermelha da L.E.B. - Edições Loyola) - O que nasce da carne é carne; o que nasce do Espírito é espírito.
Ioh 3,6 pela Vulgata o texto em referência é o seguinte : Quod natum est ex carne, caro est: et quod natum est ex Spiritu, spiritus est
4. Aqui o autor se refere a passagem de Gal 5 , 16-26
5. Aqui o autor se refere a passagem de Rom. 8 , 5-9
6. Lc 1 e Jo 3 referências não localizadas
7. Aqui o autor se refere a passagem de Mc 6 , 17-29


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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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