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Romantismo

Não se pode ignorar a importância do Romantismo Alemão no resgate do misticismo cristão da Idade Média, em especial de Mestre Eckhart, e na revivificação da Theosophia. Tomaremos como referência para esta exposição o excelente livro de Ernst Benz, que reproduz um curso que ministrou no Collège de France em 1963, "AS FONTES MÍSTICAS DA FILOSOFIA ROMÂNTICA ALEMÃ".

Uma noção importante no Romantismo é aquela de Vida, tão bem estudada por Michel Henry:
Quanto à vida, tivemos a ocasião de ver quanto seu conceito permanece indeterminado na história do pensamento ocidental. Desde que sua definição não consiste mais na simples enumeração de propriedades objetivas que se pode ler sobre o ente vivente, a vida aparece como uma força cujo estatuto é a este respeito incerto que a ciência moderna não fará outra coisa senão eliminar. Do ponto de vista filosófico, mais precisamente na filosofia anterior aos desenvolvimentos da biologia do século XX, o conceito de vida se encontra em uma situação análoga. Além das propriedades objetivas dos organismos viventes, a vida aparece como uma entidade obscura — a única diferença sendo que esta podia ser afirmada, se tornar eventualmente o tema de uma filosofia especulativa, em lugar de ser simplesmente negada como na ciência moderna.

O pensamento romântico oferece o exemplo privilegiado de uma concepção da vida cujo prestígio decorre bastante do caráter indeterminado de seu objeto. A única determinação desta entidade indeterminada que é a vida lhe vem precisamente de que ela é pensada independentemente do indivíduo, sendo considerada como uma força superior a ele. A vida aparece então como uma poder impessoal, anônimo e, porque exclusivo da singularidade do indivíduo, "universal". Enquanto universal ela está pronta a desempenhar o papel de um princípio — o princípio de uma explicação global de todos os fenômenos, o princípio de um mundo. A vida universal não é somente superior ao indivíduo, ela lhe é estranha e como tal indiferente. É um fluxo impessoal submergindo o que encontra, estranho portanto a tudo que recobre, conduz ou aciona. "A este rio da vida, diz Hegel, é indiferente a natureza das engrenagens que faz girar" (Fenomenologia do Espírito, I p.237 da trad. francesa de J. Hyppolite).

A separação da Vida e do Indivíduo desvela suas consequências decisivas e catastróficas do momento que o Indivíduo é reconduzido a sua essência própria, a saber a ipseidade sem a qual nenhum Indivíduo não seria possível. Em nosso primeira abordagem da vida, mostramos que a vinda ao primeiro nível da vida na filosofia revolucionária de Schopenhauer não tinha chegado no final das contas senão a seu rebaixamento. E isso porque, na falta de ser reconhecida na sua fenomenalidade própria, privada desta ao contrário, a qual se encontrava confiada na representação, quer dizer ao mundo, a vida não era mais que uma força cega. Ora é desta incapacidade de pensar a vida como Verdade e, bem mais, como a essência original desta, uma razão que agora se descobre para nós: é precisamente a separação da Vida e do Indivíduo. Uma vida sem o indivíduo nela é portanto uma vida sem ipseidade — sem Si —, é uma vida que não se experiencia a si mesma e que se encontra na impossibilidade de o fazer, uma vida privada da essência do viver, privada de sua própria essência — uma vida privada de vida, estranha à vida. Se o conceito de vida é conservado para designar esta entidade absurda de uma vida estranha à essência da vida, de uma vida que não se experiencia a si mesma, isto não pode ser senão uma condição. ã condição que, por um golpe de força, esta entidade seja erigida em realidade e, que mais é, em princípio de toda realidade. Uma vida que não se experiencia a si mesma é uma vida inconsciente. O conceito de vida inconsciente não resulta da única oposição da vida à verdade do mundo, deve ser compreendido mais rigorosamente como a expressão fenomenológica do conceito de uma vida privada de ipseidade, incapaz de se experiencia a si mesma, estranha ao indivíduo — de uma vida anônima.

É o conceito de uma Vida separada do Indivíduo que forneceu ao romantismo seus temas maiores. Não que o romantismo elimine de entrada de jogo o indivíduo. Ele o toma ao contrário como ponto de partida — como uma aparência, para ser mais exato. O que visa, é a dissolução deste indivíduo de alguma forma provisória em uma realidade mais alta que ele, na maré deste rio sem margens de sua individualidade que o indivíduo poderá reunir este fundo impessoal de toda realidade e se fundar nela. A eliminação da individualidade do indivíduo e assim deste último, eis o que se propõe, através das formas de conceitualização diversas, como a condição de uma salvação.

WIKIPEDIA


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Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)