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id da página: 4112 MISTICISMO RENANO-FLAMENGO
ASCETISMO E MISTICISMO — MISTICISMO RENANO-FLAMENGO

O Fundamento (Ungrund) da Alma

Excertos de THE RHINELAND MYSTICS

O misticismo renano-flamengo acredita que somos no centro de nosso ser, de algum modo peculiar, sensitivos a Deus, abertos a Ele, de fato, de uma maneira que transforma e subordina todos os outros aspectos de nossa vida em Deus. O caminho adiante, neste misticismo, é o caminho de auto-desprendimento: uma desnudez do si mesmo daquilo que não é essencial para que finalmente se dê prioridade existencial a esta área profunda dentro de nós a qual somo atraídos além de nós mesmo a uma apreensão imediata da presença de Deus. Esta, a ideia de um "fundamento (Ungrund) da Alma", é certamente o aspecto mais significativo do misticismo renano-flamengo, e o eixo de seu ensinamento espiritual. É aqui dentro do “fundo” da alma que Deus ele mesmo nasce, e esta imagem, o “NASCIMENTO DE DEUS NA ALMA” expressa o estado unitivo mais alto que a alma pode desfrutar com seu Criador.

Este ímpeto interiorizante do “misticismo da essência” (Wesensmystik), a crença que o lugar no qual vamos ao encontro imediato com Deus é nosso próprio núcleo interior, põe em relevo certos aspectos da vida espiritual cristã. A primeiro aspecto é o desapego. O jornada interior demanda que aprendamos a nos desapegar do mundo. Algumas vezes isto é concebido como um desapego moral no qual praticamos auto-abnegação e auto-abandono, e algumas vezes parece ser um estado de consciência no qual nossas mentes se tornam livres de toda a imagearia do mundo criado. Este último processo é visto como sendo essencial para avanço progressivo da alma no conhecimento de Deus sem imagens e sem formas. A chamada “Teologia Negativa” (vide apophasis) ou “Via Negativa” da Igreja, de acordo com a qual a suprema transcendência de Deus é afirmada, encontra no misticismo renano-flamengo uma de suas formas mais ricas de expressão. Neste caso, “o Fundamento da Alma” é expressivo da potencialidade última da alma de elevar-se além do conhecimento das coisas criadas a um novo conhecimento intuído e inexprimível do incriado. Este novo modo de conhecer é fundado não no exercício de uma faculdade particular dentro da alma mas é ele mesmo a natureza mais interior da alma ela mesma. O conhecimento desta espécie, o qual é conhecimento de Deus, é um estado de ser: é algo que somos (embora em nível muito além de nossos modos ordinários de “ser”), ao invés de algo que “fazemos”.

Um segundo motivo que ganha ênfase neste misticismo da essência ou do ser é o da pobreza. Os séculos XIII e XIV assistiram a inúmeras discussões sobre a natureza da pobreza cristã; com efeito, este tema tornou-se um dos divisores dentro da Igreja na ferrenha luta entre o extremo dos franciscanos e o Papado. O tema que interessa ao misticismo da essência era naturalmente aquele da pobreza espiritual, de acordo com a qual o si mesmo perde qualquer sentido de posse através de sua absorção na vontade de Deus. No entanto, esta ênfase espiritual enormemente influente (acentuada na Imitação de Cristo, por exemplo) deve ser vista como uma espécie de contrapartida interior ao envolvimento intensivo com a questão da pobreza material em debate na Igreja de então. Interessantemente, as duas espécies de pobreza quase nunca são igualadas ou vistas juntas, mas cada uma deixa de lado a outra. A única exceção talvez seja o Livro da Pobreza Espiritual.

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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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