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id da página: 7696 UM ESTUDO SOBRE A NOÇÃO DE AHAMKARA
A Índia, especialmente bramânica, elaborou uma noção bastante singular — que não se encontraria talvez equivalente em outra cultura — ao redor da qual cristalizou de século em século sua reflexão sobre os problemas da individuação. Trata-se de ahamkara. O interesse desta noção é de servir a tematizar o que resta de ordinário implícito, a saber a afirmação do caráter construído, logo artificial, logo factício, de uma certa forma, reputada em nós natural, da consciência de si. Ela se apresenta assim como a análise crítica, implícita e potencial, de um tipo de vivido que consideramos geralmente como sucedendo e sobre o fundamento do qual se edificaram todas nossas concepções propriamente filosóficas do sujeito. Nós encontramos aí a ocasião preciosa de nos ver pelos olhos de outro, de tomar em relação a nossas concepções familiares sem arriscar ao mesmo tempo tomar em um domínio conceitual radicalmente estranho, posto que a finalidade mesma deste gênero de análise é de nos remeter sem cessar ao sentido original de nossa experiência vivida, além do arbitrário de uma certa tradução cultural.

Mas então o que é o ahamkara? Embora em um sentido seja o objeto mesmo deste trabalho explorar a fundo o campo semântico da noção, podemos desde agora delimitar a extensão e referenciar suas principais articulações internas. Ahamkara significa literalmente «efetuação -karak- do Eu -aham-». Como nota Marcel Mauss, a estrutura do termo remete a uma origem sábia ao invés de uma formação espontânea. J.A.B. Van Buitenen foi, por outro lado, o primeiro a sugerir que tenha sido provavelmente construído sobre o modelo destes termos em -kara que designam um som, ou mais exatamente um grito, uma exclamação, uma onomatopeia. «Fazer Eu» significaria de partida «lançar o grito “eu”». E, de fato, o comportamento linguístico como Eu, a tomada da palavra na primeira pessoa, permanecerá um dos aspectos permanentes e constitutivos do ahamkara. Mas dizer «eu» signfica também se conhecer como «eu», se experimentar como radicalmente distinto das outras pessoas, como único e incomparável. Ganha-se então o registro psicológico e moral, aquele da vida cotidiana, ou melhor de seu reflexo na literatura (poesia, conto, relato épico, teatro, etc.). Ahamkara designa aqui todos os comportamentos onde o indivíduo põe em prática sua afirmação tácita do caráter único e incomparável de sua própria pessoa, onde se consente a ele mesmo exceções exorbitantes em relação às regras morais ou sociais que reconhece em um outro plano. É significativo a este respeito que o sânscrito não distingue claramente entre o que chamaríamos de um lado «egoísmo», e de outro «orgulho». Tomado nesta acepção, o akamkara não exprime uma certa escolha existencial que se estaria livre de fazer ou de não fazer: todo homem, todo ser vivo, é naturalmente egoísta e orgulhoso, se vê ele mesmo como um absoluto, se prefere ao universo inteiro.


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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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