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PIERRE GORDON — A IMAGEM DO MUNDO NA ANTIGUIDADE

Segundo o próprio autor, seu propósito nesta obra é identificar os traços principais da representação que os antigos formaram do universo, e daí estabelecer, se possível, a origem.

O problema é dificultado pela ilusão que temos de situar no ponto de partida uma investigação mental análoga a nossa: os homens teriam se posto, em tempos antigos, as questões que nos colocamos, e eles as teriam resolvido por hipóteses que seriam fundamentalmente de mesma natureza; eles seriam questionados, por exemplo, de onde proviam as coisas físicas, de que maneira elas teriam iniciado e como elas teriam revestido o aspecto que nós as vemos; eles teriam, tateando, destacado algumas imagens e algumas ideias, que lhes teriam parecido explicativas; as gerações posteriores teriam prosseguido este trabalho, em aí introduzindo progressivamente mais precisão, e eliminando o ranço religioso inicial. A teogonia teria assim evoluído em cosmogonia, em seguida em cosmologia e em física.

Este processo comete o erro de não responder às exigências do método sociológico; coloca com efeito na fonte somente démarches de ordem psicológica. Por outro lado, ele admite, como primeiro fundamento da Imagem do cosmo, reflexões sobre o desdobramento fenomenal, ao passo que, segundo a mentalidade antiga, este desdobramento não levantava qualquer espécie de dificuldade, sendo adequadamente justificado, em todos os seus detalhes e todos seus contornos, pela presença subjacente de uma energia sobrenatural. A intervenção do sagrado dissimulava a todas as obscuridades e dava integralmente satisfação à inteligência. A natureza não suscitava qualquer problema insolúvel. Tudo parecia simples. Tal é, de resto, ainda o caso para muitos dos primitivos e meio-civilizados.

É, em consequência, do sagrado que se deve partir, dito de outro modo, da energia transcendente incorporada aos seres e aos objetos da natureza pelos ritos. Há conformidade por aí às regras essenciais do método sociológico, posto que o domínio ritual constitui uma realidade social; pode-se dizer mesmo que foi, em uma distante época, a única realidade social, porque correspondia estritamente então à realidade ontológica. Por outro lado, não se arrisca em cair nas explicações naturistas, que são a grande desgraça da etnologia religiosa e falseiam radicalmente as visões sobre a pré-história. É somente em uma época muito tardia que os antigos tomaram em consideração a experiência sensível. Durante milênios esta foi dominada a seus olhos por forças superiores, que a governavam e dela davam integralmente conta. Estas forças eram aquelas que revelavam os ritos. Por seu intermédio, o homem tinha domínio sobre os fatos empíricos. Não visavam portanto estes últimos senão como apêndices, que vivificavam e iluminavam as clarezas da experiência litúrgica.

É preciso reconhecer a natureza profunda e a virtude dos ritos, posto que estes se referem a uma experiência vivida e a uma realidade, que tiveram o poder nos antigos povos de servir de base a uma justa Imagem do Mundo.

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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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