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id da página: 3027 FIÉIS DO AMOR
ESCOLAS — FIÉIS DO AMOR

VIDE: DANTE ALIGHIERI, AMOR CORTÊS

LÉXICOS: TRADIÇÃO E SIMBOLISMO; Guénon

Mircea Eliade: DANTE E OS FIÉIS DO AMOR
A função soteriológica do amor e da Mulher é claramente proclamada por um outro movimento, de aspecto essencialmente "literário", mas que comportava uma gnose oculta e, provavelmente, uma estrutura iniciatória. Trata-se dos Fedeli á'Amore (Cf. Luigi Valli, II linguaggio segreto di Dante e dei Fedeli d'Amore; R. Ricolfi, Studi su i "Fedeli d'Amore", vol. I), cujos representantes são atestados no século XII tanto na Provença e na Itália como na França e na Bélgica. Os Fedeli d'Amore constituíam uma milícia secreta e espiritual, que tinha por fim o culto da "Mulher única" e a iniciação no mistério do "amor". Todos os seus membros utilizavam uma "linguagem oculta" (parlar cruz), para que a sua doutrina não fosse acessível a "la gente grossa", como afirma um dos mais ilustres dos Fedeli, Francesco da Barberino (1264-1348). Outro fedele d'amore, Jacques de Baisieux, prescreve em seu poema — C'est des fiez d'Amours — "que não se devem revelar os conselhos do Amor, e sim guardá-los com muito cuidado" (D'Amur ne doivent révéler Les consiaus, ma''s très bien celer (...)" — C'est des fiez d'Amours, vs. 499-500, citado por Ricolfi, op. cit. pp. 68-69). Que a iniciação pelo Amor fosse de ordem espiritual, afirma-o o próprio Jacques de Baisieux, interpretando o significado da palavra "Amor":

A senefie en sa partie
Sans, et mor senefie mort;
Or l'assemblons, s'aurons sans mort" (Citado por Ricolfi, p. 63).
(A significa, por sua vez, Sem, e mor significa morte; Juntemo-las, e teremos sem morte.)


A "Mulher" simboliza o intelecto transcendente, a Sabedoria. O Amor a uma mulher acorda o adepto da letargia em que o mundo cristão havia mergulhado por causa da indignidade espiritual do Papa. Encontra-se efetivamente nos textos dos Fedeli d'Amore a alusão a uma "viúva que não é viúva": é a Madonna Intelligenza, que permaneceu "viúva" porque seu esposo, o Papa, morreu para a vida espiritual ao se consagrar exclusivamente aos assuntos temporais.

Não se trata, propriamente, de um movimento herético, mas de um grupo que já não reconhecia aos papas o prestígio de chefes espirituais da cristandade. Nada se sabe sobre os seus ritos de iniciação, mas estes deviam existir, pois os Fedeli d'Amore formavam uma milícia e realizavam reuniões secretas.

De resto, desde o século XII os segredos e a arte de encobri-los impõem-se em meios muito diversos. "Os enamorados e as seitas religiosas têm a sua linguagem secreta, e os membros de pequenos círculos esotéricos dão-se a conhecer através de sinais e símbolos, cores e senhas (F. Heer, Tke Medieval World, p. 158).

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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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