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Ano Litúrgico — Festividades

VIDE: NATAL; EPIFANIA; PÁSCOA; PENTECOSTES

LÉXICOS: TRADIÇÃO E SIMBOLISMO; Guénon; Schuon; Coomaraswamy

Segundo a Tradição durante o ciclo anual do sol, uma série de celebrações rompem o fluxo da rotina do homem, fazendo-o lembrar, reviver e louvar condições especiais do ciclo cósmico onde sua vida transcorre.

Símbolos se associam às festividades garantindo sua "encenação" e intensificando sua experiência.

Sobre as festividades cristãs, o livro de Alan Watts, quando era seminarista, merece leitura: MYTH AND RITUAL IN CHRISTIANITY de Alan Watts

Cabala

Adin Steinsaltz (Adin Even Yisrael): Excertos de "A Rosa de Treze Pétalas". Maayanot, 1992.

Os ciclos do mês e do ano são um pouco diferentes, porque estão relacionados com eventos naturais, como os movimentos do sol e da lua, ou com eventos sociais-nacionais que assumiram um significado além do histórico. O mês judaico, por exemplo, é um ciclo lunar, relacionado exclusivamente com as fases da lua: a lua crescente constitui o começo do mês, e a lua minguante, sua última parte; e a maioria dos feriados acontecem na época da lua cheia, ou próxima dela. Simultaneamente, o primeiro dia do mês, na época da lua nova, tem uma posição especial no ciclo do ano. Porém, o ciclo anual do sol tem a sua santidade nas festividades e nos dias sagrados, quando um evento revelatório no passado histórico e no futuro determinado divinamente estão ligados ao presente, ritualmente.

É dessa maneira que os dias sagrados estão relacionados com eventos históricos importantes, como o Êxodo do Egito na Páscoa, o recebimento da Torá no Monte Sinai em Shavuot (Pentecostes), ou as andanças dos Filhos de Israel na floresta em Succot (Tabernáculos). Essas festividades sagradas não foram planejadas como simples dias recordatórios para manter viva a memoria dos eventos; são épocas designadas divinamente, dedicadas a uma renovação da mesma revelação que aconteceu uma vez naquele dia do ano, uma repetição e uma restauração das mesmas forças. De modo que a santidade das festividades deriva não só de uma revelação divina primordial, mas também da contínua ressantificação de Israel, do modo como mantém esses dias sagrados, desta revelação.

Além dos dias festivos que recapitulam alguma revelação primordial na história, há dias sagrados que preenchem a necessidade de santificar o tempo, ou o próprio ano. Assim, o Dia do Ano Novo é, de certa maneira, o primeiro dia do homem no mundo criado. Da mesma forma, Iom Kippur, o Dia do Perdão, é o dia quando a Santidade Suprema é revelada, e o homem se eleva acima de todos os mundos. Isto é possível pelo perdão divino de todos os pecados, que vence a tendência descendente das forças resultante das transgressões e dos pensamentos vergonhosos, e produz uma imensa nova purificação da ligação do homem com Deus.

Como a santidade de um dia festivo deriva não só do evento histórico que comemora, mas também da revelação que há atrás desse evento, alguns eventos históricos não merecem ser perpetuados como dias sagrados, em absoluto. Portanto, um evento histórico pode ser comemorado somente como um dia recordatório, triste ou alegre segundo o caso, mas não parte da ordem dos dias eternamente santificados. Assim, os aniversários de alguns eventos profundamente trágicos, como a destruição do Templo, são contados como dias de lamentações através das gerações. Somente quando o mundo atingir um certo grau de redenção, esses dias poderão dissolver-se no esquecimento. Até então, certos dias do ano, como a primeira parte do mês "Av", são considerados dias de lamentação e infelicidade, e neles costumam aparecer, ou reaparecer, calamidades, multiplicando a força das lembranças tristes.

Além das festividades e dos jejuns que pertencem à nação como um todo, outros dias marcam eventos significativos nas carreiras de personalidades de destaque, que tiveram alguma influência sobre o povo inteiro, ou uma parte dele, e há dias que comemoram eventos na história de certas famílias, ou nas vidas individuais. Os aniversários das mortes dos grandes homens (e no judaísmo, somente os homens sagrados são grandes), por exemplo, são considerados ocasiões não, em sua grande maioria, de pena pelo falecimento de um líder, mas de alegria, ao lembrar a santidade do homem e sua derradeira vitória espiritual na morte. Também, aniversários ou outros dias de importância pessoal, com frequência fazem parte do ciclo individual do ano. O fato importante é que os únicos dias verdadeiramente sagrados são aqueles que derivam sua santidade de Deus — ou seja, quando numa certa data no curso do tempo, a divina abundância é revelada e volta a revelar-se a cada ano sucessivo.


Simbolismo

Gilbert Durand: CAMINHOS DO ANO

Uma quarta e breve observação vem confirmar essa "espessura" temporal das portas do ano litúrgico: os liturgistas sempre fizeram com que as festas marcadas para certos dias fossem transferidas para antes e depois do dia fixado, graças ao sistema das vigílias e sobretudo da oitava. A vigília (ou "véspera") prepara com um oficio especial a festa do dia seguinte. A maior parte das grandes celebrações católicas tem sua vigília, algumas das quais são "privilegiadas": Natal, Pentecostes. Quer dizer: não ficam atrás de qualquer outra festa. Mas é sobretudo a oitava, seja da primeira, segunda ou terceira ordem, ou seja ainda "comum", que distribui a comemoração ao longo de uma semana, ou seja, cerca de 7 graus do Zodíaco.

Tais distribuições, essa "espessura" de datas provocam reforços — "redundâncias" —, que o simbolismo da liturgia temporal e até mesmo o santoral vêm confirmar e que podemos chamar de "sinapses", uma espécie de assonância liturgicamente simbólica. Gostaríamos de estudar agora algumas dessas "sinapses", desses "tempos fortes" que balizam os caminhos do ano litúrgico.

A primeira constatação a fazer é que as sinapses mais evidentes estão situadas não só em torno dos três (na verdade, quatro, como veremos) ângulos litúrgicos do céu, mas também em torno da cúspide dos outros meses zodiacais.

No que concerne os "ângulos" privilegiados, marcados na primavera pelo temporal de Páscoa e depois, no solstício de verão, pelo de Pentecostes — e no Natal, sem dúvida, pelo solstício de inverno —, a sinapse dos dias santificados é sempre mais ou menos evidente. A Páscoa cristã — assim como a semana de 14 a 21 nizan, da Pesah dos judeus — é marcada por um cenário "mítico". É a ascensão do Cristo a Jerusalém e a última subida do Calvário que definem a "semana santa". Como a sinapse da festa da Ascensão configura uma sinapse com respeito a essa ascensão, cerca de 30 graus depois da Páscoa, legitima dez dias mais tarde a sedução de uma nova sinapse: a da "descida" da lei cristã no dia de Pentecostes.

Vale notar que esse simbolismo da descida é lembrado em contraponto, mas de forma muito tênue (enquanto para o Pentecostes a Vulgata emprega o termo cecidit), de certa forma no próprio coração da liturgia ascensional pelas festas em sinapse da Anunciação (25 de março) e do Arcanjo Gabriel, que é representado fazendo uma reverência ou então ajoelhado, e às quais se soma, no dia 19 de março, São José que afirma a paternidade terrestre do Cristo.


A sinapse de verão (v. Festividades), a da oitava do Pentecostes (prolongada, na igreja oriental, pela "quaresma dos Apóstolos", de primeiro a 28 de junho) é reforçada no sentido da "descida" apostólica pelo santoral. Vale lembrar antes de mais nada que a festa de Todos os Santos se situava primitivamente em 13 de maio, na programação pentecostal, comemorando a consagração do Panteão de Agripa a Maria e a todos os santos e mártires por Bonifácio IV, em 13 de maio de 640. Foi Gregório VII que, desastradamente, transferiu essa festa de glorificação do outono, fazendo com que a devoção popular a confundisse com a comemoração dos defuntos... É com efeito a data solsticial do Natal de verão: a natividade de João Batista — o último dos profetas e o primeiro dos apóstolos —, seguida de perto, nos dias 29 e 30 (com a vigília) pela primeira festa dos principais apóstolos, Pedro e Paulo. Sublinhemos também essa confusão homonímica que faz de 26 daquele mês, na oitava de São João Batista, a festa de João e Paulo, mártires da época de Constantino.

Finalmente, a festa de Tiago o Maior (25 de julho), apóstolo, e da mulher-apóstolo, Santa Maria Madalena (22 de julho), a primeira santa da Igreja depois da Virgem Maria, se situam explicitamente com relação ao solstício crístico (a cúspide de Leão). Outra redundância significativa está em sinapse desse "tempo dos Apóstolos", da festa de Pedro e Paulo, na festa de São Pedro dito "dos vínculos", associada estreitamente a São Paulo pela liturgia. Sem contar a extraordinária "memória" dos Santos Macabeus, mártires assimilados por Gregório de Nazianzo aos famosos heróis libertadores judeus. Mas sobretudo Pedro e Paulo, tanto na vigília de primeiro de julho como em primeiro de agosto, "substituem" exatamente os príncipes terrestres, César e Augusto, cujos nomes figuram ainda no quinto e no sexto mês: constitues eos principes super omnem terram (Salmo XLIV, 17-18) diz o gradual da missa.

Seria necessário registrar também a propensão desse quadrante do ano a duplicar ou multiplicar os santos: em 7 de julho temos Cirilo e Metódio, em 10 de julho os sete irmãos, filhos de Santa Felícia. Já notamos Pedro e Paulo (28, 29 e 30 de junho), João e Paulo (26 de junho), Maria e Isabel (a visitação em 2 de julho). Todos são signos dessa "descida" multiplicadora do apostolado do Espírito, inaugurada pelas flamas plurais do Pentecostes. A iconografia primitiva já simbolizava essa cunhagem apostólica do Espírito Santo (a Santa Pudenciana, São Clemente de Roma, em Albenza, por exemplo), representando os doze apóstolos por doze pombas, emblema do Espírito Santo.


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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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