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DIVINO — DEIDADE

VIDE: DEUS; DIVINDADE; NATUREZA DIVINA

DEIDADE, DEUS (GOTTHEIT, DEITAS, GOTT)

(Gottheit: deitas (em latim), deidade)

Excertos do glossário do tradutor, Enio Paulo Giachini, da ótima versão portuguesa dos "Sermões Alemães" de Mestre Eckhart

Na consideração de Deus como Abgeschiedenheit, distinguimos Deus e deidade. Portanto, divindade e deidade. Divindade é a qualidade de ser Deus. Deidade é, porém, o ser de Deus, o próprio seu, digamos a sua "quinta essência", ele mesmo nele mesmo, na sua aseidade e inseidade, solto, desprendido de tudo que não é ele mesmo, pura e simplesmente, portanto Deus-Abgeschiedenheit.

Costumamos explicar essa duplicidade do conceito eckhartiano de Deus com o binômio: Deus quoad nos e quoad se, isto é, Deus referido a nós criaturas, e Deus referido a si mesmo. Muitas vezes essa dupla referência é interpretada como o modo de conhecer das criaturas, isto é, o nosso modo de conhecer e o modo de conhecer de Deus, referidos a Deus ele mesmo. Nesse sentido, Deus quoad se nos é inacessível. Tudo que dele podemos conhecer quoad nos é o que ele não é. Daí, Eckhart seria um dos grandes representantes da assim chamada teologia negativa. Outras vezes, a dupla referência é formulada como Deus virado para fora dele mesmo, na perspectiva do seu relacionar-se para com as suas obras ad extra, e Deus virado para dentro dele mesmo, na perspectiva do seu relacionar-se com a sua vida interior, com a sua intimidade ad intra. Tanto a primeira maneira de considerar a questão como a segunda, no fundo, parecem não fazer jus à “ideia” da Abgeschiedenheit. Pois ambas operam com a preocupação da adequação com o objeto do conhecimento, cujo sentido do ser é o da coisalidade física e de sua adequação. Talvez o inter-esse de Eckhart não esteja primeira e acentuadamente nas questões da teoria do conhecimento de Deus, mas sim nas questões da experiência de identificação com o ser de Deus, isto é, da Abgeschiedenheit no mistério da filiação divina. Trata-se, portanto, não propriamente de conhecimento de um objeto chamado Deus, mas sim do co-nascimento de Deus na alma e da alma em Deus, ou, dito de outro modo, do toque de Deus na união de encontro dele conosco, e assim da realidade do co-nascimento com o Filho unigênito do Pai, na recepção da sua filiação. E isto de tal maneira que esse interesse não é propriamente o aspecto místico-moral-espiritual do ensinamento de Eckhart, místico e pastoralista, em diferenciação ao aspecto especulativo-teórico de Eckhart teólogo e filósofo, mas sim, a fonte e a plenitude dentro da qual ele se acha. É, portanto, a dimensão do seu ser, saber, querer, sentir enquanto realização da realidade chamada mundo da revelação cristã. Isto significa que, para entendermos bem de que se trata quando se distingue Deus e deidade, é necessário aprofundar a compreensão da Abgeschiedenheit enquanto a dinâmica do Mistério da Santíssima Trindade. Esse aprofundamento, porém, não pode ficar no nível de classificação da revelação cristã como o ponto de vista subjetivo e particular religioso, ascético-moral, ou místico-espiritualista ao lado de outros pontos de vista, como por exemplo, filosófico1, mas deve levar em conta o ser, o sentido do ser, a essência da existência cristã, a partir e dentro da qual fala Eckhart, isto é, considerar o ser da revelação cristã como o ontologicum2 da fala de Eckhart.

THEOSOPHIA
Jacob Boehme: O NASCIMENTO DE DEUS

Há portanto em Boehme por um lado a pura Deidade e por outro lado sua emanação que é o Deus da teosofia. A pura Deidade escapa totalmente ao nosso conhecimento, enquanto o Deus emanado é o Deus que se revela.

Em boa lógica, tudo o que deveríamos dizer a respeito desta pura Deidade absolutamente desconhecível, é que nada sabemos a dela. No entanto Boehme não pode se impedir de incluí-lo em sua proposta. Como falar do Deus que se revela sem sugerir este Absoluto do qual emana? Se a teosofia é a história da manifestação divina, deve-se bem imaginar que esta ação tenha um princípio. Boehme faz bem de afirmar que este princípio é eterno, isso significa somente que se repete eternamente, e é no entanto um princípio. Desde então, há um antes deste princípio?

Sobre o plano da pura Deidade, considerada nela mesma, não há nem antes nem depois. Segundo a definição de uma eternidade perfeita. Mas o Deus emanado é um Deus que nasce. Há então um princípio. Como explicar este princípio? Esta questão implica uma reflexão sobre a pura Deidade que, para nós, precede necessariamente o Deus emanado, mesmo se em si ela é eterna.

Deus nasce seguindo um ciclo septiforme que chamamos o ciclo da manifestação divina. Como começa este ciclo? Deve-se imaginar que em um momento dado, a Divindade primordial que Boehme chamada a Deidade pura, sai dela mesma para aí se engajar. É bem assim que Boehme se exprime. Mas demandamos então isto que determina a Divindade a se expandir fora dela mesma, enquanto anteriormente ela repousa nela mesma.

LÉXICOS: Guénon; Schuon; Coomaraswamy; Metafisica Cristã; Philokalia; Vocabulário da Filosofia; Tradição e Simbolismo

NOTAS:

1. Se o filosófico na sua essência não é outra coisa do que questão, isto é, busca de evidenciação do sentido do ser, então uma colocação que não leva a sério o fato de que o ser da existência cristã é o ontologicum do pensamento de Eckhart parece não ser suficientemente filosófico. Toda a questão aqui é como pensar a "relação" entre a totalidade constituída por um determinado sentido do ser e a outra totalidade, constituída por um outro sentido do ser. Por ser cada vez totalidade, não pode haver uma totalidade das totalidades como se fosse gênero, para duas espécies ou comum de dois.
2. Actus purus, ato puro, é a pura e plena dinâmica de ser (verbo) na absoluta plenitude da liberdade no seu límpido desprendimento.


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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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