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CONHECIMENTO — CONCEITO

VIDE: NOEMA; INTELIGIBILIDADE

Filosofia

Georg Kühlewind: LOGOS

Arcângelo Buzzi

Pode-se também pensar a partir do barulho, do ruído dos conceitos e das palavras. É preciso, porém, não esquecer que os conceitos e as palavras de per si não revelam o ser. São simples sinais que falam do ser, como a rosa é sinal que sugere a beleza, o aperto de mão sinal que sugere a amizade, o beijo sinal que sugere o amor. Ter a rosa não significa imediatamente estar na beleza que ela evoca. Estar na expressão da amizade e do amor não significa imediatamente que de fato se está na amizade e no amor.

Os conceitos e as palavras tiveram sua origem numa silenciosa experiência do ser. Por conseguinte, a filosofia objetiva de um filósofo, por exemplo a filosofia de Platão, de Santo Agostinho, de Kant, de Leibniz, de Merleau-Ponty ou de Martin Heidegger, expressa em conceitos e palavras, só é reveladora do ser na medida em que soubermos perceber a mesma experiência originária da realidade por eles surpreendida e falada.

A filosofia elaborada oferece assim instrumentos úteis de acesso ao ser. Cada conceito, cada palavra, sabemo-lo de antemão, reenviam ao ser. É preciso tomá-los como caminho ao ser, como escada que conduz aos umbrais do palácio do ser. À medida que se entra, abandona-se a escada. O conceito em si mesmo, a palavra ela mesma, apenas apontam o ser. No palácio do ser não se fala. Vive-se no silêncio. A plenitude é o silêncio. Silêncio de escuta. Precisamente para deixar que o ser apareça em sua elementar pureza, em sua nascividade primeira. Silêncio da expressão do ser não significa silêncio da experiência do ser. Antes o contrário. A experiência do ser nos invade na medida do nosso silêncio. Depois, num segundo momento, rompemos o silêncio e falamos daquela experiência.

A fala pode até ser tosca, imprecisa, alógica. Ela cumpriu sua missão desde que encaminhe alguém à experiência que ela sugere. Saint-Exupéry escreve:

«A velha camponesa só atinge o seu deus através de uma imagem pintada, de uma ingênua medalhinha, de um rosário: é preciso que nos falem numa linguagem bem simples para que possamos entender» (Saint-Exupéry, Terra dos Homens, Rio 1970, p. 16).

Desde que tivermos feito a experiência originária do ser, toda palavra por simples que seja, conquanto acessível a quem a ouve, é apta a provocar uma sempre mais clara e diáfana revelação do ser.

A palavra em si não é desvelamento do ser, como a tosca medalha não é para a velha camponesa revelação de Deus. O acesso a Deus, a velha o faz por uma experiência diáfana, inefável, inexprimível. Da mesma forma, o filósofo tem acesso ao ser numa experiência que é anterior a qualquer representação conceitual e de linguagem, embora não dispense a representação do conceito e da palavra.

Stanislas Breton: PHYLOSOPHIE ET MYSTIQUE

Posto que a teoria do verbo mental foi construída para esclarecer o dogma trinitário da processão do Verbo, era normal que se buscasse na experiência humana, em sua maior generalidade, as ilustrações mais apropriadas. Deve-se assim apelar a uma metafísica do vivente, tal qual se podia conceber nesta época medieval, com os meios de então que não são os nossos. Ora o intelecto representa, na hierarquia dos graus de vida, a forma mais alta do vivente. Segue-se que se verifica nele, em sua perfeição suprema, a essência da vida, a qual não é somente conservação e crescimento, mas também fecundidade. O intelecto, em seu agir, não podia ser estéril. Fecundo, ele se devia engendrar. Sua progenitura imaterial como ele, não é outra senão o «verbo mental». Um escolástico do século XVII, João de São Tomás, se autorizará a etimologia do termo latino conceptus (do verbo concipere) para ler no conceito, tomado em sua espiritualidade, a necessidade de «conceber» e de «engendrar». Esta evidência, sugerida só pela etimologia, podia ser confirmada por um princípio metafísico, indubitável ele também: o princípio segundo o qual, parelho com a conexão do ser e do agir, todo ente é dotado de uma eficiência, ou de uma causalidade. O intelecto, em seu agir, não poderia ser privado de uma eficiência produtiva. Ora a produção generatriz excede o indivíduo, o abre seja sobre a espécie; seja, como é o caso no «verbo mental», sobre a referência semântica.

Por este último traço, o conceito-verbo se aproxima do signo e da Semiótica. É um fato que falamos: é um fato que, em falando, queremos dizer algo, e este querer-dizer não é outro senão «significar». Nossas palavras portanto têm um sentido. Ora este sentido, antes de ser materializado em uma voz ou em uma grafia, «subsiste» no intelecto. É compreendido não somente por nós, mas por aqueles que nos escutam e a quem falamos; as traduções de uma língua em outra pressupõem esta unidade e constância do sentido, que assim é um dado objetivo que, embora imanente ao intelecto e a seu ato, não se identifica puramente a este. O sentido não é portanto um ato, o verbo mental também não, embora deste proceda, como procede do Pai, na Trindade, o Verbo divino como pessoa distinta.

NÃO-DUALIDADE
Jean Klein: A SIMPLICIDADE DO SER
Un concepto es un pensamiento y un pensamiento es una palabra; una palabra es un sonido y un sonido es una pulsación. ¿Qué hay antes de la pulsación? Silencio. Por tanto, un concepto es sólo una objetivación del silencio. En realidad, todo lo que aparece es una objetivación del silencio. En el momento de unidad con la expresión, sólo hay silencio.


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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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