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VIDA — AUTO-AFETO

VIDE: AFETIVIDADE, ALMA IRASCÍVEL
É preciso buscar um entendimento dos termos AFETO e AFEÇÃO (AFECÇÃO). O dicionário Houaiss define a etimologia de "afecção" a partir de affectio, que significa "relação entre várias coisas, estado, modo de ser". Por sua vez, a etimologia de "afeto" a partir de affectus, indica "estado psíquico ou moral, afeição". A fenomenologia da vida de Michel Henry trabalha com o termo francês "affection", cuja etimologia dada pelo dicionário Larousse data o termo de 1190, em São Bernardo, com o significado de "disposição física ou moral". Em nosso entendimento, a tradução que mais se aproxima do francês de Michel Henry seria "afecção", porém guardando traços do termo "afeto"; o que nos levou a usar de modo não rigoroso o verbo "afetar", e tanto a expressão "auto-afecção" quanto "auto-afeto", nas traduções de Michel Henry.

Poderíamos resumir a "afecção" como a modulação da própria vida em cada vivente; vida esta, EM QUE a experiência vivida aparece, COM QUE a experiência vivida é conhecida, A PARTIR DE QUE a experiência vivida é feita.


FILOSOFIA MODERNA
Espinoza: ÉTICA
Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída” – Ética III, Def 3 (VIDE)


Franz von Baader
Tudo é afecção (Alles ist Affect). Amor é Deus; ódio não existe, mas apenas se esforça para existir. Nossa existência consiste somente em afecção (im Affect); afecção (voluntária) é existência. É errado que tantos teólogos não se deem conta da identidade do solo para afecção, afeição e vontade. O que não desejamos, amamos ou odiamos — o que não nos afeta (toca) — não é nada para nós. Toda nossa existência está em afecção... Anima est ubi amat. Afecção é mais elevada (profunda, interior) e mais externa que conhecimento.


Michel Henry: EU SOU A VERDADE

Introduzamos aqui um conceito decisivo e que, a bem dizer, deveria ter sida introduzido mais cedo, na medida que governa a inteligência filosófica da essência da vida, o conceito de auto-afecção. O próprio da vida com efeito, é que ela se auto-afeta. Esta auto-afecção define seu viver, o “se experienciar a si mesmo” no qual ela consiste. Afecção quer dizer em geral: manifestação. Se um ente do mundo me afeta, é que se faz sentir para mim, se mostra para mim, se dá para mim – esta manifestação do mundo, como se viu, sua “verdade”. Verdade e afecção são termos equivalentes. Ao conceito de afecção que designa toda afecção qualquer que seja e assim toda manifestação – a afecção por um ruído que ouço, por um objeto que vejo, por um odor que sinto, ou ainda a afecção de meu espírito por uma imagem ou qualquer outro conteúdo representativo –, se opõe de maneira radical o conceito de auto-afecção. O que me afeta na auto-afecção, não é precisamente nada de mais estranho ou exterior a mim que sou afetado, nenhum objeto do mundo consequentemente nem este mundo ele mesmo. O que afeta no caso do auto-afecção é o mesmo que o que é afetado. Mas esta situação extraordinária na qual o que afeta é o mesmo que o que é afetado não se realiza a princípio em parte alguma senão na vida. Nesta todavia uma tal situação se realiza absolutamente, de tal maneira que ela define a essência desta vida. Pois a vida é isso: o que se auto-afeta neste sentido radical e decisivo que esta vida que é afecção, que é afetada, não é precisamente afetada por nada mais senão por ela mesma, por nenhuma exterioridade nem por nada de exterior. De maneira que, é ela que constitui ela mesma o conteúdo de sua afecção. No conceito de auto-afecção como essência da vida está implicado seu acosmismo, o fato que, não sendo afetada por nada de outro ou de exterior, radicalmente estranha ao mundo, ela se cumpre em si mesma na suficiência absoluta de sua interioridade radical – não experienciando senão a si mesma, não sendo afetada senão por si, antes de todo mundo possível e independentemente dele.

Ora esta condição da vida e de tudo o que porta em si essência da vida não resulta de uma afirmação especulativa. É uma condição fenomenológica. Como tal, ela pode se ler em cada uma das modalidades efetivas da vida. Uma alegria pode bem ser explicada por um evento do mundo ou ser reportada a ele, ela pode, além do mais, se reportar ela mesma a algum objeto ou causa exterior a ela, causa ou objeto se destacando sobre a tela do mundo. Mas a alegria ela mesma não se ilumina na luz de nenhum mundo. Considerada nela mesma em sua afecção pura e como o puro viver de alegria no qual se esgota sua realidade, esta alegria só é uma modalidade patética da vida, uma maneira da qual a vida se experiencia. E isso vale de toda modalidade da vida, desde a impressão a mais simples!. Todavia, se cada modalidade da vida considerada na imanência de seu viver porta em si a essência absoluta da vida, não sendo jamais nada mais que um modo desta, de sua auto-fenomenalização patética e não extática, então com efeito a possibilidade de uma dissociação entre este filho da vida que, eu transcendental vivente, eu sou eu mesmo de uma parte, o Arque-Filho por outro, e enfim, a essência fenomenológica desta Vida absoluta, seja Deus ele mesmo, faz problema.

Distinguimos um conceito forte e um conceito fiável do auto-afecção. Segundo seu conceito forte, a vida se auto-afeta em um duplo sentido – nisto que, por um lado, ela define ela mesma o conteúdo de sua própria afecção. O “conteúdo” de uma alegria por exemplo, é esta alegria ela mesma. Por outro lado, no entanto, a vida produz ela mesma o conteúdo de sua afecção, este conteúdo que ela é ela mesma. Ela não produz à maneira de uma criação exterior projetando o criado fora de si, como algo outro, estranho – exterior. Precisamente ela não o cria – o conteúdo da vida é incriado. Ela o engendra, ela se dá a ela mesma este conteúdo que ela é ela mesma. É a maneira pela qual a vida se dá a ela mesma este conteúdo que ela é ela mesma que importa. Esta auto-doação que é uma auto-revelação é uma afecção transcendental, um pathos no qual todo se experienciar a si mesmo é possível como patético precisamente, como afetado no profundo de seu ser. Por passiva que seja este experienciar que a vida faz constantemente de ela mesma em seu constringir patético, ele disto não é menos produzido pela vida ela mesma, e é esta geração por si da vida que indica o conceito forte de auto-afecção. Segundo este conceito então, a vida é afetada por um conteúdo que é ela mesma, e é ela, além do mais, que dispõe este conteúdo pelo qual ela é afetada – ela que afeta, que se afeta. Este conceito forte do auto-afecção é aquele da vida fenomenológica absoluta e só convém a ela, quer dizer a Deus.

Eu, ao contrário, Eu transcendental vivente, retiro eu também minha essência na auto-afecção. Enquanto eu, me afeto eu mesmo, sou eu mesmo o afetado e o que o afeta, eu mesmo o “sujeito” desta afecção e seu conteúdo. Eu me experiencio a mim mesmo, e isto constantemente, na medida que este fato de me experienciar eu mesmo constitui meu Eu. Mas não me sou levado eu mesmo nesta condição de me experienciar eu mesmo. Eu sou eu mesmo mas eu não sou eu mesmo por nada neste “ser-eu-mesmo”, eu me experimento eu mesmo sem ser a fonte deste experienciar. Sou dado a mim mesmo sem que esta doação depreende de mim de alguma maneira. Eu me afeto e assim eu me auto-afeto, é eu, digamos, que sou afetado e o sou por mim neste sentido que o conteúdo que me afeta, é ainda eu – e não algo outro, o sentido, o tocado, o querido, o desejado, o pensado, etc. Mas este auto-afeto que define minha essência não é meu fato. E assim eu não me afeto absolutamente mas, para o dizer com rigor, eu sou e eu me encontro auto-afetado. Aqui se descobre para nós o sentido fraco do conceito de auto-afecção, aquele que convém à compreensão da essência do homem, não àquela de Deus.

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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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