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id da página: 10759 AMOR CORTÊS
Idade Média — AMOR CORTÊS

VIDE: FIÉIS DO AMOR

PERENIALISTAS
Mircea Eliade: DANTE E OS FIÉIS DO AMOR
No amor cortês, pela primeira vez desde os gnósticos dos séculos II e III, eram exaltados a dignidade espiritual e o valor religioso da Mulher (Muitos textos gnósticos exaltam a Mãe divina, bem como o "Silêncio místico", o Espírito Santo, a Sabedoria. "Eu sou o Pensamento que habita a Luz, aquele que já existia antes de qualquer outra coisa. Sou ativo em cada criatura (...). Sou o invisível Uno no Todo (...)" — texto citado, por Elaine Pagels, The Gnostic Gospels, pp. 65 s.—. Num poema gnósticoTrovão, o Espírito Perfeito —, uma força feminina declara: "Eu sou a primeira e a última. (...) Sou a esposa e a virgem. (...) Sou a mãe e a filha" etc. (ibid., p. 66).). Segundo vários estudiosos, os trovadores da Provença foram inspirados pelo modelo da poesia árabe da Espanha, que glorificava a mulher e o amor espiritual que ela desperta. Mas é preciso também levar em conta os elementos celtas, gnósticos e orientais, redescobertos ou reatualizados no século XII. Por outro lado, a devoção à Virgem — que domina essa mesma época — santificava indiretamente a mulher. Um século mais tarde, Dante (1265-1321) irá ainda mais longe: Beatriz — a quem ele conhecera ainda mocinha e reencontrara já como esposa de um fidalgo florentino — é divinizada. Proclama-a superior aos anjos e aos santos, imune ao pecado, quase comparável à Virgem. Beatriz torna-se uma nova mediadora entre a humanidade (representada por Dante) e Deus. Quando Beatriz está prestes a aparecer no Paraíso terrestre, exclama alguém: "Veni, sponsa, del Líbano" (Purgatório, XXX, 11), o famoso trecho do Cântico dos Cânticos (IV, 8) que a Igreja havia adotado, mas que só era entoado em honra da Virgem ou da própria Igreja. Em outros passos (Purgatório. XXXIII, 10 s.), Beatriz aplica a si própria as palavras de Cristo: "Um pouco, e não mais me vereis; outra vez um pouco, e ver-me-eis", João 16,16). Não se conhece outro exemplo tão esplêndido da divinização de uma mulher. Evidentemente, Beatriz representava a teologia e, portanto, o mistério da Salvação. Dante escrevera a Divina Comédia para salvar o homem, trazendo a sua transformação não em amparo de teorias, mas aterrorizando e fascinando o leitor com as visões do Inferno e do Paraíso. Embora não fosse o único, Dante ilustra de maneira exemplar a concepção tradicional que afirma que a arte, a poesia sobretudo, é um meio privilegiado não apenas para comunicar uma metafísica ou uma teologia, mas também para despertar e salvar o homem.

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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)
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