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page id: 7689 ILUMINAÇÃO DO CORAÇÃO - A EXPECTATIVA 2
André Allard l'Olivier — A ILUMINAÇÃO DO CORAÇÃO
Tradução da parte II do capítulo II - A Expectativa

Coisa, objeto, ser objetivo, são termos rigorosamente sinônimos que designam não importa o quê à exceção do proferente existencial ele mesmo: assim como o número cento e vinte cinco, que inspeciono (para conhecer, por exemplo, que é cúbico), que a noção de número (ou não importa que outra noção) ou, em uma ordem de coisas inteiramente diferente, esta macieira, no jardim, a qual, pela janela, vejo e detalha a planície ou, ainda, meus olhos, pelos quais vejo esta macieira e que toco pela ponta dos dedos, ou estes dedos que vejo e por meio dos quais toco meus olhos. E todas estas coisas, em sua qualidade de objeto, são «visadas» pelo proferente-visante, posto que este é o sujeito puro.

As coisas que viso são ou bem sensíveis, o que quer dizer que a visada que as apreende é operada hic et nunc por meio dos sentidos, ou, ao contrário, não sensíveis. Estas últimos são objetos de pensamento e são de duas espécies, seja inteligíveis, seja imagens 1 . Retornarei sobre a distinção que convém fazer entre um objeto inteligível e um objeto imaginário; quero notar de pronto que, visando as coisas, quando surgem e aparecem, as conheço enquanto são/estão «aí» e que, as conhecendo como «aí», as conheço seja como já conhecidas a um grau mais ou menos suficiente (as reconheço), seja como devendo ser conhecidas melhor que como coisas simplesmente «aí», o que su supõe que vou me aplicar a melhor conhecê-las. Ora, é porque toda coisa é/está «aí», incluindo as coisas que constituem uma parte ou um aspecto do ser-total-que-sou (corporal, pensante, agente, querente, não-querente, desejante ou experimentando aversão, etc.) que acabo de supor, na raiz deste ser que sou, um princípio superior, «diante» o qual as coisas conhecidas como o disse se mantêm, e que me especifica sujeito radical puro. Por outro lado, se uma coisa conhecida por este proferente-visante que me especifica sujeito radical puro é conhecida como devendo ser melhor conhecida, este segundo conhecimento, sem dúvida, não é o afazer deste princípio que não é senão um olho — ou um facho de luz projetado sobre as coisas; este conhecimento é aquele do pensamento mental, pelo qual o ser-que-sou é além do mais pensante, imaginante, querente, etc., pensamento que não é um dinamismo senão porque está ligado ao princípio radical que o visa e o anima. Outro, portanto, é o mental, órgão e sede do pensamento razoável, e outro o princípio radical de minha subjetividade, ainda chamado «proferente-visante» (porque profere o sum e visa tudo que não é ele). Mas se o princípio radical visa o mental e os objetos inteligíveis situados no plano do mental, não é menos certo que tem parte ligada com o mental. Eles estão unidos como estão unidos a mão que segura a caneta e a caneta que traça as palavras. Inteligência: tal é o nome que convém a esta união. E o princípio radical, na medida que está unido ao mental, é chamado espírito (nous). Compreende-se que o exame dos objetos de pensamento, enquanto visados pelo princípio radical, seja tornado incômodo por este duplo aspecto deste princípio que, por um lado, visa, vê e conhece, à maneira de um olho, todos os objetos que lhe são ob-jetados, e que, por outro lado, está unido estreitamente ao mental que ativa e do qual é, de certa maneira, a raiz, embora todo ato de conhecimento noético seja afazer comum destes dois constitutivos da inteligência.

Enquanto sou este corpo — estas mãos, estes braços, este tronco, estes olhos — sou coisa sensível entre as coisas sensíveis deste mundo; e enquanto sou pensamento, penso e, principalmente, estas coisas sensíveis; mas enquanto sou este proferidor que diz «eu» e que visa tudo que se oferece a ele, não sou nem este corpo, nem este pensamento, mas somente uma realidade pura e radicalmente subjetiva. Todo ser «aí diante» o sujeito radical e puro é esta coisa, e todo pensamento, na medida que é objetivamente «aí diante» o sujeito radical e puro que o visa, é coisa ela mesma (embora o dinamismo do pensamento implique uma estreita associação da radicalidade subjetiva e dos objetos noéticos o-postos a esta).

NOTAS:
1 A classificação de todos os seres objetivos é garantida por uma dupla dicotomia. De pronto, o objeto é seja sensível, seja de pensamento. Em seguida, o objeto de pensamento é seja imaginário, seja inteligível. O objeto sensível é aquele que, visado por minha radicalidade subjetiva — e por meio de meus sentidos — se apresenta hic et nunc ao ser total que sou como um existente análogo ao existente que em razão de minha radicalidade subjetiva, sou. É, por exemplo, esta macieira coberta de flores, situada no jardim, e que me parece existir como existo. Isso posto, o objeto de pensamento se define negativamente: é o ser não sensível oferecido imediatamente à visão interna que me especifica sujeito puro. O objeto sensível parece existir: o objeto de pensamento não tem nem mesmo esta aparência de existência, pois não existe senão da existência da qual, ser pensante, sou dotado: o ser de pensamento é uma determinação de meu pensamento.



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Responsável

Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ (2005)